Tuesday, March 29, 2005
Com a benção de São Jorge
Não estou nem um pouco preocupado com as opiniões contrárias. Jogo na roda mesmo e sempre admiti em público o quanto gosto do "subproduto" cultural Big Brother Brasil. Pronto, falei de novo. As críticas ao BBB são inúmeras: "despersonaliza as pessoas", "cria personagens por meio da edição", "vulgariza as relações humanas", "escancara a intimidade", para mim, honestamente, todas válidas.
O que eu não engulo, porém, é as pessoas esquecerem que, ainda que em nome de um prêmio de R$ 1 milhão, 14 pessoas aceitam despojar-se de suas vidas, por 7, 14, 28 ou 79 dias (no caso dos vencedores). E sobreviver à restrição de liberdade não é fácil, nada fácil.
No último final de semana, abandonei o convívio da minha filha para tentar curtir uma viagem ao interior, com quase o mesmo número de pessoas que participam do programa, no caso específico, 15. Paguei, ao invés de receber uma recompensa (rarará) e paguei caro. Curti piscina, comi bem, fiquei num sitiozinho acanhado, mas bonitinho... Mas não tinha minha liberdade, não podia sair para dar um pulo na cidade, pois não conhecia a cidade e a programação dos três dias foram todas agendadas para dentro da casa, não foi armada uma caminhada, uma atividade mais cultural, nada...
Imaginem, então, para essas 14 pessoas, essa angústia, esse sentimento de ficar sem sua cama, sem seus amigos, sem telefone, sem e-mail, sem família, sem CD´s (o que seria de mim sem meus CD´s???)??? Não é fácil, gente. É restrição de liberdade, por maiores que sejam as mordomias eventuais, quase diárias, com a qual são agradados para tentar sobreviver aos paredões e ao principal paredão _o da própria mente, angustiada, muitas vezes com o confronto entre o seu "eu real" e o "eu persona", dos poucos que devem ter chegado a ter essa consciência (acho que ninguém esteve perto de saber totalmente quem era para o público, visto as reações que tiveram ao ver trechos do programa editados na final disputada há pouco).
E venceram os dois que na, minha opinião, mais souberam contornar a angústia do confinamento e que também mostraram quem realmente eram. Primeiro, o professor baiano, homossexual, devoto de umbanda, de São Jorge guerreiro, Jean Wyllis, filho de família pobre do interior baiano que chegou a algum lugar pelo caminho do conhecimento, primeiro como jornalista, depois mestre em letras. Em segundo, a miss paranaense, também pobre, de cidade pequena, que transformou sua beleza em trunfo, mas nunca deixou de ser a Graziella Massafera, filha de pedreiro, que não teve vergonha de confessar, anteontem, que nunca foi ao teatro, mas o jogo todo mostrou que sempre teve ouvidos e coração abertos para aprender os modos do mundo em suas viagens de Miss Beleza Internacional e que soube compreender e amar, inclusive incondicionalmente, dentro da casa.
Longa vida ao programa, mesmo com a "edição pesada" de alguns episódios, o prêmio de 1 milhão, as chacrinices do Pedro Bial, os gritos dos participantes quando vêem seus parentes no telão... E boa sorte, de novo, na escolha do elenco, como ocorreu neste BBB5.
E me desculpem, bravos amigos intelectuais por qualquer coisa. Amanhã tem seleção. Bunda, futebol, samba, violência, falta de educação, o Brasil continua. Não percam tanto tempo detonando o BBB.
Não estou nem um pouco preocupado com as opiniões contrárias. Jogo na roda mesmo e sempre admiti em público o quanto gosto do "subproduto" cultural Big Brother Brasil. Pronto, falei de novo. As críticas ao BBB são inúmeras: "despersonaliza as pessoas", "cria personagens por meio da edição", "vulgariza as relações humanas", "escancara a intimidade", para mim, honestamente, todas válidas.
O que eu não engulo, porém, é as pessoas esquecerem que, ainda que em nome de um prêmio de R$ 1 milhão, 14 pessoas aceitam despojar-se de suas vidas, por 7, 14, 28 ou 79 dias (no caso dos vencedores). E sobreviver à restrição de liberdade não é fácil, nada fácil.
No último final de semana, abandonei o convívio da minha filha para tentar curtir uma viagem ao interior, com quase o mesmo número de pessoas que participam do programa, no caso específico, 15. Paguei, ao invés de receber uma recompensa (rarará) e paguei caro. Curti piscina, comi bem, fiquei num sitiozinho acanhado, mas bonitinho... Mas não tinha minha liberdade, não podia sair para dar um pulo na cidade, pois não conhecia a cidade e a programação dos três dias foram todas agendadas para dentro da casa, não foi armada uma caminhada, uma atividade mais cultural, nada...
Imaginem, então, para essas 14 pessoas, essa angústia, esse sentimento de ficar sem sua cama, sem seus amigos, sem telefone, sem e-mail, sem família, sem CD´s (o que seria de mim sem meus CD´s???)??? Não é fácil, gente. É restrição de liberdade, por maiores que sejam as mordomias eventuais, quase diárias, com a qual são agradados para tentar sobreviver aos paredões e ao principal paredão _o da própria mente, angustiada, muitas vezes com o confronto entre o seu "eu real" e o "eu persona", dos poucos que devem ter chegado a ter essa consciência (acho que ninguém esteve perto de saber totalmente quem era para o público, visto as reações que tiveram ao ver trechos do programa editados na final disputada há pouco).
E venceram os dois que na, minha opinião, mais souberam contornar a angústia do confinamento e que também mostraram quem realmente eram. Primeiro, o professor baiano, homossexual, devoto de umbanda, de São Jorge guerreiro, Jean Wyllis, filho de família pobre do interior baiano que chegou a algum lugar pelo caminho do conhecimento, primeiro como jornalista, depois mestre em letras. Em segundo, a miss paranaense, também pobre, de cidade pequena, que transformou sua beleza em trunfo, mas nunca deixou de ser a Graziella Massafera, filha de pedreiro, que não teve vergonha de confessar, anteontem, que nunca foi ao teatro, mas o jogo todo mostrou que sempre teve ouvidos e coração abertos para aprender os modos do mundo em suas viagens de Miss Beleza Internacional e que soube compreender e amar, inclusive incondicionalmente, dentro da casa.
Longa vida ao programa, mesmo com a "edição pesada" de alguns episódios, o prêmio de 1 milhão, as chacrinices do Pedro Bial, os gritos dos participantes quando vêem seus parentes no telão... E boa sorte, de novo, na escolha do elenco, como ocorreu neste BBB5.
E me desculpem, bravos amigos intelectuais por qualquer coisa. Amanhã tem seleção. Bunda, futebol, samba, violência, falta de educação, o Brasil continua. Não percam tanto tempo detonando o BBB.
Wednesday, March 23, 2005
Fim do oba-oba
Como é irritante e uníssona a crítica musical. Já encheram o saco as críticas (as que eu li pelo menos) descendo a lenha nos antes queridinhos Moby, Chemical Brothers e Fatboy Slim, que dominaram o cenário no início dos 2000. Nenhum dos três novos álbuns lançados pelos artistas recebeu sequer três estrelas dos "jornalistas especializados".
Entretanto, cada vez que ouço uma música nova de cada um deles, os considero mais maduros, bacanas e até bem humorados, mesmo diante da adversa realidade mundial atual. Até agora não ouvi nenhum dos três discos inteiros, mas as músicas que já ouvi são ótimas. "Lift Me Up", do Moby, nos transporta para as pistas mais estroboscópicas dos anos 80/90, lembra coisas boas, como a pronúncia de Hacienda. Já a versão do fatboy para "The Joker" é "ótema"!!!!, sem contar o clipe, que é uma obra a parte.
Falando em novos discos ignorados de velhos artistas, não custa falar mais um pouco do U2. Cada vez gosto mais de "All Because Of You", ainda mais com Bono e Cia. imitando a promoção que os Stones fizeram de "Brown Sugar", em 1971, sobre um caminhão pelas ruas de Manhattan. O clipe do Phil Joanou (diretor do clássico "Te Pego Lá Fora" e do documentário "Rattle and Hum", do U2) é simples e bom, mas a edição que a MTV fez no especial ", U2 live in New York foi melhor.
Como é irritante e uníssona a crítica musical. Já encheram o saco as críticas (as que eu li pelo menos) descendo a lenha nos antes queridinhos Moby, Chemical Brothers e Fatboy Slim, que dominaram o cenário no início dos 2000. Nenhum dos três novos álbuns lançados pelos artistas recebeu sequer três estrelas dos "jornalistas especializados".
Entretanto, cada vez que ouço uma música nova de cada um deles, os considero mais maduros, bacanas e até bem humorados, mesmo diante da adversa realidade mundial atual. Até agora não ouvi nenhum dos três discos inteiros, mas as músicas que já ouvi são ótimas. "Lift Me Up", do Moby, nos transporta para as pistas mais estroboscópicas dos anos 80/90, lembra coisas boas, como a pronúncia de Hacienda. Já a versão do fatboy para "The Joker" é "ótema"!!!!, sem contar o clipe, que é uma obra a parte.
Falando em novos discos ignorados de velhos artistas, não custa falar mais um pouco do U2. Cada vez gosto mais de "All Because Of You", ainda mais com Bono e Cia. imitando a promoção que os Stones fizeram de "Brown Sugar", em 1971, sobre um caminhão pelas ruas de Manhattan. O clipe do Phil Joanou (diretor do clássico "Te Pego Lá Fora" e do documentário "Rattle and Hum", do U2) é simples e bom, mas a edição que a MTV fez no especial ", U2 live in New York foi melhor.
Saturday, March 19, 2005
Fala a verdade...
Eu fico um bom tempo aqui falando do Ludov. Agora não falo mais, quero que vocês escutem.
Eu fico um bom tempo aqui falando do Ludov. Agora não falo mais, quero que vocês escutem.
Wednesday, March 02, 2005
USP: terra de contrastes
Pois é. Bastaram dois dias do curso de letras na USP para perceber que aquele micro-universo representa exatamente o sistema de castas brasileiro, com sua desigualdade social abissal. Apesar de não ser nem um pouco rico (os únicos bens em meu nome são minhas contas do FGTS, que não posso movimentar) devido a minha faixa de renda como assalariado, sou considerado classe média no Brasil e, por conta disso, enquanto puder desembolsar o dinheiro da xerox dos livros, comprar um e outro volume e almoçar todo dia, ainda que no bandejão, serei considerado "rico" pelos colegas.
Mas isso é só um detalhe. A turma, apesar das carolas, virgens e espinhudas, é composta em sua grande maioria por bichos grilos fãs de reggae e super da paz, humildes, batalhadores e na sua imensa maioria, percebe-se nitidamente, oriundos da periferia, interior do Estado e de escolas públicas, como eu, com uma pequena porção (eu diria uns 20%), de pessoas que já trabalham, como eu, e estão buscando na letras um escapismo onírico diletante ou que são ricos e estão ali por gostar. É claro que tem gente assim também, oras. Ou seja, estou com um pé em cada "facção" da FFLCH.
Terça agora, segundo dia de aula, já sentei no chão para assistir uma apresentação de algumas professoras doutoras ou doutorandas apresentando os departamentos da faculdade, o que cada um tem e, principalmente, o que cada um não tem. A velha ladainha (mas verdadeira) da falta de recursos que atrapalha o bom andamento da FFLCH, em especial do curso de letras e seus 850 novos alunos ano após ano, em que a previsão de conclusão do curso é de 4 anos, mas onde 90% dos alunos que se formam levam entre 5 e 6 anos para concluir, fazendo habilitação dupla: português e outra língua.
E não sentei no chão porque estivéssemos realizando alguma "vivência comunitária" ou algo típico. Sentei no chão com vários colegas porque não existe uma única sala na FFLCH (quiçá um auditório) com capacidade para 400 e poucas pessoas, o número de matriculados no primeiro semestre. E no chão conheci um cara de Guararema, que não havia dormido direito, pois havia passado a noite em claro no Extra da Brigadeiro por falta de grana. "Estou vendendo o almoço para pagar a janta. Meu pai morreu e minha mãe está desempregada e minha avó, mora aqui em São Paulo, mas do outro lado da cidade". E é de caras como ele, uma massa de "quase pretos, quase brancos", que é formada a FFLCH, de pessoas que vestem com orgulho camisetas da Letras-USP, vendidas na barraquinha da frente da faculdade, com a estampa do rosto de Drummond.
E foi com gente dessa turma que fiz um tour na USP e conheci os prédios da FAU e da FEA e foi quando finalmente vi o abismo: prédios lindos, conservados, espaçosos, verdadeiros shopping centers destinados aos ricos desse país, dentro de um espaço público, com muito mais verba, investimentos, professores com salários pagos por fundações, com renda mensal de R$ 30 mil reais, alunos de terno e salto agulha (FEA) e com roupas de grife e cabelos da moda (FAU). O restaurante da FEA é maior que o galpão ridículo que abriga um laboratório de edição (se não estou enganado) da ECA, lotado de equipamentos caros. Na FEA, uma sala de aula tinha bancos estofados e a mesa do professor era um verdadeiro púlpito, daqueles que você vê em filmes americanos. Meus colegas, que nunca tinham visto coisa semelhante, se admiravam, enquanto os veteranos brincavam que um dia iriam invadir de verdade a FEA. E, detalhe, a água dos bebedouros é gelada e os banheiros são extremamente limpos.
Esta é parte da USP, este é parte do Brasil.
Pois é. Bastaram dois dias do curso de letras na USP para perceber que aquele micro-universo representa exatamente o sistema de castas brasileiro, com sua desigualdade social abissal. Apesar de não ser nem um pouco rico (os únicos bens em meu nome são minhas contas do FGTS, que não posso movimentar) devido a minha faixa de renda como assalariado, sou considerado classe média no Brasil e, por conta disso, enquanto puder desembolsar o dinheiro da xerox dos livros, comprar um e outro volume e almoçar todo dia, ainda que no bandejão, serei considerado "rico" pelos colegas.
Mas isso é só um detalhe. A turma, apesar das carolas, virgens e espinhudas, é composta em sua grande maioria por bichos grilos fãs de reggae e super da paz, humildes, batalhadores e na sua imensa maioria, percebe-se nitidamente, oriundos da periferia, interior do Estado e de escolas públicas, como eu, com uma pequena porção (eu diria uns 20%), de pessoas que já trabalham, como eu, e estão buscando na letras um escapismo onírico diletante ou que são ricos e estão ali por gostar. É claro que tem gente assim também, oras. Ou seja, estou com um pé em cada "facção" da FFLCH.
Terça agora, segundo dia de aula, já sentei no chão para assistir uma apresentação de algumas professoras doutoras ou doutorandas apresentando os departamentos da faculdade, o que cada um tem e, principalmente, o que cada um não tem. A velha ladainha (mas verdadeira) da falta de recursos que atrapalha o bom andamento da FFLCH, em especial do curso de letras e seus 850 novos alunos ano após ano, em que a previsão de conclusão do curso é de 4 anos, mas onde 90% dos alunos que se formam levam entre 5 e 6 anos para concluir, fazendo habilitação dupla: português e outra língua.
E não sentei no chão porque estivéssemos realizando alguma "vivência comunitária" ou algo típico. Sentei no chão com vários colegas porque não existe uma única sala na FFLCH (quiçá um auditório) com capacidade para 400 e poucas pessoas, o número de matriculados no primeiro semestre. E no chão conheci um cara de Guararema, que não havia dormido direito, pois havia passado a noite em claro no Extra da Brigadeiro por falta de grana. "Estou vendendo o almoço para pagar a janta. Meu pai morreu e minha mãe está desempregada e minha avó, mora aqui em São Paulo, mas do outro lado da cidade". E é de caras como ele, uma massa de "quase pretos, quase brancos", que é formada a FFLCH, de pessoas que vestem com orgulho camisetas da Letras-USP, vendidas na barraquinha da frente da faculdade, com a estampa do rosto de Drummond.
E foi com gente dessa turma que fiz um tour na USP e conheci os prédios da FAU e da FEA e foi quando finalmente vi o abismo: prédios lindos, conservados, espaçosos, verdadeiros shopping centers destinados aos ricos desse país, dentro de um espaço público, com muito mais verba, investimentos, professores com salários pagos por fundações, com renda mensal de R$ 30 mil reais, alunos de terno e salto agulha (FEA) e com roupas de grife e cabelos da moda (FAU). O restaurante da FEA é maior que o galpão ridículo que abriga um laboratório de edição (se não estou enganado) da ECA, lotado de equipamentos caros. Na FEA, uma sala de aula tinha bancos estofados e a mesa do professor era um verdadeiro púlpito, daqueles que você vê em filmes americanos. Meus colegas, que nunca tinham visto coisa semelhante, se admiravam, enquanto os veteranos brincavam que um dia iriam invadir de verdade a FEA. E, detalhe, a água dos bebedouros é gelada e os banheiros são extremamente limpos.
Esta é parte da USP, este é parte do Brasil.