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Monday, December 08, 2003

Oscars à vista

Assisti "Sobre Meninos e Lobos". Filme lindo, mas me deixou muito mais descrente na humanidade, mais do que já sou. Me deixou com dúvidas, mas uma certeza também, de que Mr. Clint vai levar várias estatuetas para casa dessa vez.

Thursday, December 04, 2003

O fim

Não há mais esperanças. Só me resta escrever.

Tuesday, December 02, 2003

42 dias

Imigrante nordestino, 70 e poucos anos, Zezinho é cabelereiro, o meu cabelereiro. Ponta firme, torcedor do Santos. Sério e educado, chama todo mundo de senhor. Usa alpercatas de couro, camisa de botão, mangas curtas, sempre para fora da calça, de tergal. Sempre assim. Se diverte com palavras cruzadas e jornal. É admirador de rodas de choro e samba antigo. Não gosta de Roberto Carlos. Rock, então, nem se fala. Detesta TV, não tem. Seu único luxo é um telefone, cujo número não é divulgado para os clientes. “É para eu ligar para o Norte”, diz. Pernambuco, mais precisamente Panelas.
Bem, meu amigo adora contar as histórias de outros tempos. Toquei, não sei por quê, no assunto mulher. Ele contou que depois de uma certa namorada, cunhada de um antigo patrão seu, em Santo Amaro, nunca mais namorou sério e desistiu de casar. O causo é o seguinte: trabalhador incansável, avesso a bebida e jogos, o Zé namorava firme essa moça. Idos dos anos 50 e poucos, Adhemar era o governador. Um belo dia, relutou com o apontador, fez um jogo louco, com tigre e gato no primeiro prêmio, tanto que lhe cobraram CR$ 40, e ganhou, o equivalente a R$ 12 mil hoje. Uma das primeiras coisas que ela disse quando soube que ele havia ganho a bolada é que com o dinheiro ele podia dar entrada em um terreno no Socorro. Zé guardou na poupança, devidamente assessorado por ela e pelo chefe. Depois, foi convidado, num domingo de sol, a ir passear na represa de Guarapiranga com a família toda dela. Ganhou, além do sol, uma bela rajada de vento, que se transformou num choque térmico, resfriado, pneumonia, depois, princípio de tuberculose. 42 dias convalescendo, remédios, não conseguia deglutir e se abastecia de laranjas, chá, sucos e água e a ajuda e apoio moral de uns vizinhos. No dia em que conseguiu comer, um domingo, decidiu que deveria voltar a trabalhar no dia seguinte. “42 dias, sabe quantas vezes ela foi me visitar??? Nenhuma, nem umazinha só”. Pois bem, ele foi trabalhar e quem apareceu, a dita, cujo nome ele preservou. “Oi Zé, você tá bem? Então, domingo você vai lá em casa?”. “Talvez, vou pensar, depois lhe digo”, disse ele. Ela achou a resposta do sempre solicito Zé estranha e ele respondeu. “Esse tempo todo que fiquei doente você não me visitou, acho que a gente deve terminar nosso namoro e você deve procurar um outro rapaz. Se você é assim agora, imagina se a gente se casar. Se eu ficar doente, você vai para a casa de outro?”. Depois disso, Zé nunca mais namorou sério. Concordo com o Zé em gênero, número e grau. Diria absolutamente o mesmo, apesar das alegações dela, de dizer que não tinha coragem de ver gente doente. Isso não é desculpa. Entretanto, caro M.S., eu não teria coragem de desistir de casar, muito menos de tentar namorar sério. Eu gosto de ser monogâmico, gosto de ser fiel e acredito que possa achar uma mulher que não vai me abandonar quando eu estiver doente, que vai me dar seu ombro quando eu quiser chorar, entretanto, de uma coisa o Zé me deixa a certeza. O amor era muito mais sério 50 anos atrás. Não combinamos isso, mas escrevi ao som do “twilight to starlight”, disco 2 do Mellon Collie, do S.Pumpkins.

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